Texto de Maria Bahiana sobre 'Inception/A Origem'
Sexta, 09 de Julho de 2010
Com todas as virtudes (e são muitas) que os bons filmes têm, poucas são as obras audiovisuais de mercado que atacam de frente a questão mais fascinante de todas as que o cinema pode propor: como nós, na platéia, vemos, compreendemos e adicionamos significado àquela sucessão de imagens em movimento? Que maravilhosa engenharia (ou arquitetura, para repetir um conceito nolanesco) nos possibilita criar histórias a partir daquilo que vemos, e dar a essas histórias elementos de emoção, memória e até paixão que trazemos do fundo de nossa alma e colocamos, como uma oferenda a um deus antigo, no altar da tela?
Inception/A Origem, de Christopher Nolan, faz exatamente isso. Nem mais, nem menos.
Não é pouca coisa. É o que os surrealistas sonharam, o que Buñuel propôs ao cortar o olho e Cocteau imaginou ao colocar a Bela no palácio da Fera. É a possibilidade da narrativa ser a história, do continente ser o conteúdo. A encruzilhada onde filme e sonho se encontram mais perfeitamente.
Desde o início de sua carreira (e dou uma dica aqui: Following, seu filme de estreia, de 1998, contém a semente de Inception) Nolan tem explorado essa encruzilhada, propondo novos modos de construir uma narrativa (Amnesia), estudando os conceitos de real/irreal (O Grande Truque). Consta que o roteiro de Inception estava escrito há nove aos. Acredito – é obra ao mesmo tempo íntegra, coerente com as ideias originais do realizador, e madura, apurada em outros projetos através de tentativa e erro .
Infelizmente, é um desses filmes sobre os quais quanto menos eu falar, melhor. É praticamente impossivel descrever sua história sem inundar a tela de spoilers. Por isso direi apenas o seguinte: Cobb (Leonardo di Caprio) é um “extrator”, um profissional capaz de invadir sonhos alheios para dali roubar segredos industriais, de estado ou o que for. Esta arte ele aprendeu com o sogro (Michael Caine) e ela lhe trouxe vasta fortuna mas também sérios esqueletos em seu armário, quase todos ligados à sua mulher, Mal (Marion Cotillard). Contratado por um executivo poderosíssimo (Ken Watanabe) para uma missão quase impossível, Cobb tem que arriscar tudo no frágil mundo que é sua vida pessoal.
Fiquemos por aqui. Posso acrescentar apenas que este é filme para se ver de olhos bem abertos, prestando atenção a tudo – porque o modo como a história está sendo contada é, essencialmente, a própria história. Como bem disse Peter Travers em sua resenha na RollingStone.com, Inception vai contra a corrente que presume que todo espectador é um idiota e portanto todo filme tem que ser ex-pli-ca-di-nho, bem mastigado e bem condescendente. Inception exige o investimento da inteligencia, da lucidez e do raciocínio ligados à toda. E mesmo assim você se perde no caminho, porque os labirintos de Nolan são melhores que os da personagem Ariadne (Ellen Page), ela do nome mitológico como o da princesa que salvou Teseu do Minotauro.
Preste atenção `as paisagens. Preste atenção à agua, aos espelhos, ao trem que tão frequentemente parte a tela em dois. Preste atenção ao que as pessoas dizem, e quando elas dizem. São chaves para o labirinto. Note algo importante: como Nolan compreende de verdade que sonhos são experiências orgânicas, alimentadas pelo que sentimos, tocamos, provamos e ouvimos enquanto acordados, informados pelos sentidos, formatados por nossas emoções.
Por isso escolheu , em vez de cenários virtuais, locações de verdade, no Canadá, Los Angeles, Paris, Tóquio, Marrocos; e efeitos mecânicos, diante da câmera, no lugar dos digitais, sempre que possível. É uma das mais importantes virtudes do filme, e o modo mais poderoso como Nolan imediatamente nos conecta com seu mundo – porque, de fato, estamos compartilhando uma experiência que, mesmo que nem sempre conseguindo descrever, sentimos e vivemos profundamente. Sonhos não são delírios virtuais – erro de muita gente que se arrisca por esta seara- mas experiências reais, multidimensionais e sensuais, enquanto estamos neles.
Inception compreende isso gloriosamente. A maravilhosa trilha de Hans Zimmer, uma mistura equilibradissima dos sons naturais de uma grande orquestra (mais a guitarra lírica de Johnny Marr) e de uma bateria de manipulações digitais, forma a atmosfera perfeita para esta experiência.
Se eu fosse fazer uma ressalva à tremenda viagem que é Inception eu diria isso – que é fácil se perder nele. Mas considerando o nível de idiotice da maioria dos filmes este ano, estou achando ótimo. Acrescento que, fiel à sua trajetória, Nolan –roteirista e produtor de Inception, além de diretor – quebra meia dúzia de regras do status quo de bem fazer cinema. Quebra bonito, com convição, elegância e a certeza de que só quem sabe muito de cinema pode se dar a esse luxo. Por exemplo: o filme é praticamente todo exposição. E que perfeição de exposição.
Eis aqui por que tenho este nível de admiração por um filme deste tamanho, feito com estes valores de produção e este elenco (todos ótimos, aliás): porque um filme desta envergadura, realizado com esta ambição e esta inteligência, pode tocar fundo a alma de milhões de pessoas pelo mundo afora. Pode fazê-las pensar, pode provocá-las, confundi-las, sacudi-las. Pode desafia-las a ver o mundo com olhos novos e observar de outros ângulos o papel do cinema no mundo. Se esta não é a vocação mais profunda da imagem em movimento, então não sei qual é.
Inception/A Origem estreia nos EUA dia 16 de julho e no Brasil dia 6 de agosto.
Via Uol Cinema
Texto de Ana Maria Bahiana
